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Postado por Fábio Fabato | 29/09/13 - 12:28

Foi num 02 de março

Adeus a Fernando Pamplona, meu amigo ídolo

Clique para ampliarO falecimento de Fernando Pamplona, ocorrido há pouco, significa o adeus do pai do carnaval contemporâneo. Sim, foi apenas um homem quem fecundou, gerou, sentiu as contrações, pariu e embalou o processo, deixando a saga da folia misturada com Belas Artes órfã de mãe. Daquelas inversões próprias do festejo que libera a contra mão em todas as esferas, diga-se de passagem. Recordo-me que foi num 02 de março quando finalmente consegui dizer ao mestre uma frase por mim ensaiada durante duas décadas: você é meu ídolo desde que me entendo por gente! Talvez ele nem tenha acreditado, mas depois entenderia. O encontro aconteceu no mais especial dos seminários que já organizei na FINEP - e um dos grandes dias da minha vida - homenagem em que reuni amigos e familiares para um debate de mais de duas horas. O epílogo, claro, teve um bar por cenário, com a madrugada chegando e o sereno caindo - "cai, cai, sereno devagar..." - e tome de cantoria etílica. Superlativo absoluto, grandessíssimo do caminhar de passos largos às ações, hiperbólico, alegórico, monumental. Este era Pamplona. Diante dele, eu - que nunca pude bater no peito para dizer que sou muito alto - sentia-me um guri ainda menorzinho. O mesmo magricela que esperava, mirando a antiga Philco de válvula e imagem levemente esverdeada, suas falas assertivas e diretas ao final de cada desfile de escola de samba transmitido pela extinta Rede Manchete.

Aquele homenzarrão sempre teve o tamanho dos meus melhores sonhos foliões e eu jamais ousava tecer qualquer opinião sobre uma apresentação sem antes ouvir o seu decreto em voz grave. E que tinha todas as tintas polêmicas, os gritos que estouravam o microfone, o sangue nas veias e no olhar de quem reinventou a história do carnaval ao deslocar a lente de aumento para debaixo dos panos, onde residiam personagens - notadamente de origem africana - para os quais os livros didáticos preferiram fazer vista grossa. Pamplona apertava as mãos com firmeza, dizia quem amava e odiava sem fazer rodeios, poderia soltar um palavrão ao vivo se alguma vírgula fora do lugar o aporrinhasse. No extenso dicionário particular, não existiam expressões como "talvez" ou "mais ou menos".

Intenso, boêmio, artista, libriano, sedutor. Escolheu Zeni, a bailarina de voz mansa e de personalidade marcante, para ser a sua colombina em um baile de carnaval a dois que durou mais de 60 anos. A única criatura, aliás, que conseguiu colocar-lhe algum tipo de freio, mesmo que para isso o suadouro representasse trabalho hercúleo: o homem era grande demais, como já contei. E foi Zeni, após o tal seminário, quem me apresentou os originais da autobiografia de Pamplona com um pedido que ganhou contornos de missão de vida: "ajude-me a publicá-la! Muitos tentaram, mas estamos há 15 anos em busca de uma editora."

Daquele café no Oi Futuro do Flamengo (com a imagem dos olhos claros brilhantes de Zeni na cabeça), saí abraçado aos escritos e somente os larguei no dia em que, finalmente, conseguimos - ela e eu - realizar o sonho do meu ídolo, àquela altura já amigo. Livro lançado ("O Encarnado e o Branco", editora NovaTerra, 2013), festa linda, tantos colegas, tanta verdade, tantas lembranças... E olha que ele relutou, não queria publicar mais nada. Mentira, queria sim, puro charme. Contraditório como só os grandes, ranzinza e adorável. Fantasiava-se de muito forte, e era mesmo! Mas trazia uma doçura que - cigarros, uísques, vinhos e águas de coco depois -, deixava transparente. Lembro-me bem quando me disse: "Você é maluco de querer publicar isso, Fabinho", entre uma colherada e outra de um Häagen-Dazs de chocolate que dividimos e raspamos até o fundo do tacho. Assim mesmo, "Fabinho". Ser Fabinho aos olhos dele, diminutivo e afago, me deixou maluco mesmo, maluco beleza, um bem que jamais conseguirei calcular. Ora, no fundo, Fábio é apenas o ritual de cartório que deseja se transformar em Fabinho. E Pamplona, cá pra nós, nunca foi mesmo de regras.

"Ele fez o que quis, um pássaro livre que nunca engaiolei ", sintetizou Zeni, pouco antes da partida que os parentes e amigos já esperávamos, tão logo saíram os resultados dos primeiros exames. De bar em bar, do Municipal à Avenida, do morro ao asfalto, do balé ao samba, Fernando Augusto da Silveira Pamplona, 87 anos, salgueirense, botafoguense, "cariocacreano", foi o sujeito de formação erudita que deixou um legado marcado por cheiro, gosto e textura de gente, de povo. Completo, pois. Fernando esteve para nós, meros mortais, como um autêntico rei, e fez jus à sua autoridade não por riqueza material, mas pela bravura de guerreiro cultural por vocação, além da capacidade de acolhimento e transmissão de sabedoria.

Receba, Fernando, meu beijo, meu carinho, o amor do fã que, ao seu lado, voltava no tempo, à meninice adormecida pelo natural e democrático processo de envelhecimento. No fundo, e eu mantive escondidinha tal vontade, sempre esperei que nos debruçássemos na janela do seu apartamento para assistir a um desfile qualquer passando lá embaixo. De escolas de samba, de ranchos, das grandes sociedades, até de automóveis mesmo, ou de sua Zeni, na ponta dos pés, a bailar. Eu ouviria os seus comentários e, acredite, me reencontraria com alguns dos momentos mais felizes da minha vida.

Até para sempre!

Do seu amigo e fã, Fabinho.



Seminário sobre Fernando Pamplona na FINEP:

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