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Postado por Fábio Fabato | 22/06/15 - 20:07

Reflexão

Carnaval e suas marcas para inglês (não) ver

Clique para ampliarSe numa situação surreal e hipotética todas as empresas sumissem do mapa ao toque de uma varinha-mágica, quais aquelas que conseguiriam dar a volta por cima com mais rapidez quando o planeta voltasse aos eixos? Grandes e conhecidas companhias, como a Coca-Cola e a Microsoft, não pensam duas vezes ao se colocarem na primeira fila. Ousadia? Pretensão? O motivo é muito simples: a força de suas marcas. Marca é um bem intangível que vale muito mais do que maquinário, mobiliário, imóveis. Tem a ver com a relação que constrói com as pessoas, com símbolos, signos que, por fim, geram envolvimento, até mesmo afetivo. O que dizer, por exemplo, da Xerox e da Gillette, cujas marcas são tão fortes que o próprio consumidor desenhou uma relação indissociável entre companhia e produto-fim? Qualquer marca de fotocopiadora vai produzir uma "xerox", hoje expressão consagrada até mesmo para qualificar pessoas semelhantes.

Ora, no campo cultural, a lógica tem lá suas especificidades, mas segue melodia parecida. Além de um dos deuses e monumentos civilizatórios de Brasil, o compositor Cartola intuitivamente foi um baita diretor de marketing ao produzir uma das mais fortes marcas brasileiras do nosso tempo. Não há combinação de verde e rosa que, de imediato, não remeta a ela, à Estação Primeira de Mangueira, a mais popular agremiação do samba carioca. Eis um autêntico vínculo fundamental, e que muitos empresários suam por anos para conseguirem atrelar aos seus produtos.

Nos dias, 18, 19 e 20 de junho, durante a Carnavália Sambacon, nada me chamou mais atenção - e deveria ter despertado o embaraço dos dirigentes -, do que a fala do advogado Gustavo Piva de Andrade, especialista em Propriedade Intelectual. Segundo ele, das doze escolas do Grupo Especial, cinco delas (quase 50%) não possuem nenhuma marca registrada. Outras cinco possuem somente uma marca registrada, enquanto uma delas possui duas. Apenas uma agremiação, umazinha, ponto altamente fora desta curva mal projetada, aparece com dezessete (!) marcas em registro.

Sabemos há muito que o carnaval - na esteira de sua característica de espelho e bebedor da vida real do entorno -, sente incômoda crise econômica que o obriga a rever os seus processos. Ao mesmo tempo, há quesitos e saberes ancestrais que não podem ser ignorados, justamente por manterem este troço todo de pé. Ao longo dos tempos, as escolas sobreviveram porque souberam se reinventar (marcas devem se reinventar sempre...), mas calçadas em elementos essenciais. Bingo! Eis a equação e Avenida em que podemos planejar quaisquer novos voos. Pois bem, chegou a hora - mesmo! - da reinvenção de toda a lógica de sobrevida do espetáculo (sem esquecimento do valor dos quesitos), mas as Carolinas comandantes da festa, por medo, comodismo ou sentimento de "ah, está dando certo há tanto tempo..." ignoram que o tempo está passando na janela.

A marca "Carnaval", "Maior Espetáculo da Terra" e coisa e tal, bem, tudo isto tem uma força de proporções bíblicas, mas ainda de boca, só no discurso-chavão, para inglês (não) ver. Qual o dito "maior show" que, agarrado ao Inacreditável Futebol Clube, comercializa ingressos por faxes? E que negocia de bruços o contrato de transmissão televisiva? Mas disso a gente já vem falando há milênios, poucos aspectos apontados têm se modificado, as lideranças não são lá muito amantes do diálogo.

A sirene de alerta, contudo, se esgoela como louca e nunca neste momento. Não, não dá mais para fechar os olhos para as torneiras secas. Se uma escola de samba não tem a preocupação de registrar sua marca por vezes sexagenária, como vai interferir na (equivocada) lógica atual de patrocínios, fincada na desidratação dos enredos?

O risco de fim de festa - longe de uma visão apocalíptica fantasiosa de última alegoria de desfile do Joãosinho Trinta -, agora desfila na Comissão de Frente da história.

Reluziu! É ouro ou lata?

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