EXPEDIENTE |  CONTATO |  HOME  



PUBLICIDADE

Postado por Fábio Fabato | 08/02/14 - 11:16

Paulo Vianna

O fim de uma era sem glórias

Clique para ampliarA renúncia de Paulo Vianna pegou todo o mundo do samba de surpresa. Parecia que ele jamais abandonaria a linha de frente da Mocidade Independente de Padre Miguel, a quase sessentona escola de samba que comandou por dez anos seguidos (2004-2014). Não vou entrar na polêmica de liminar e supostas irregularidades. A justiça é quem vai cuidar de avaliar se houve algum estrago ilícito no comando que sai de cena como o canastrão na hora que cai o pano. Quero falar de carnaval, de Avenida, da matéria-prima dessa brincadeira toda.

Infelizmente, o legado de Vianna, figura proveniente de uma família que teve importância para a Mocidade no começo de sua história (seu pai, o falecido político Waldemar Vianna, transformou o antigo bloco em escola), foi a retirada da força essencial de agremiação que ficou marcada por reinventar os desfiles desde a fundação, em 1955.

Se, no futebol, dizem que a bola pune, no carnaval, quarenta figuras são treinadas para rabiscarem graus, por vezes também punitivos. Mas a penalidade das divindades do samba para quem joga na caçamba os caracteres elementares é maior, bem maior. E a Mocidade sentiu tamanho dissabor: uma mancha histórica na face da turma do antigo Independente Futebol Clube (time de futebol do qual descende Verde e Branca), espécie de licença sabática de dez anos.

A gestão Vianna fez da Mocidade uma coadjuvante da festa. Logo ela, sempre tão à frente do tempo. Minha amiga Bárbara Pereira e eu escrevemos livros - "As Três Irmãs - Como Um Trio de Penetras arrombou a festa" (parceria minha com Alan Diniz e Alexandre Medeiros, editora NovaTerra) e "Estrela que me faz sonhar - Histórias da Mocidade" (autoria dela, editora Verso Brasil), que se debruçaram sobre a história da escola.

Ora, em ambas as obras é fácil enxergar o esfacelamento do poderio da Padre Miguel a partir de meados da década passada: os caninos do rebaixamento estiveram a milímetros do cangote em três oportunidades, inclusive no ano passado. Acerca da identidade da agremiação, no prefácio do livro de Bárbara, escrevi:

"Viraram oficina de arte e experimentação de artistas delirantes, faturaram cinco canecos, plantaram seu valor no carnaval de forma bem peculiar, mistura de raiz com apelo midiático, generosas doses de brasilidade e, claro, um empurrãozinho (na verdade, um senhor impulso!) do patronato. Estava criada a receita. A única escola de samba que subiu nos anos 50 para a elite e jamais caiu. Balançou algumas vezes, é verdade. Mas na esteira de momentos inesquecíveis tornou-se uma instituição que brincou de modificar conceitos, enchendo de viço um palco mágico também pavimentado pela vanguarda".

O parágrafo acima, para desespero dos amantes da Estrela-Guia, desapareceu na liderança de Vianna. Nos últimos anos, ditaram o ritmo do samba atravessado escolhas de diretores, parcerias e enredos equivocados, ausência de planejamento estratégico, uma administração sem motor e bússola que, infelizmente, jamais teve a noção da robustez e importância da Mocidade Independente de Padre Miguel. Em 10 anos, foram seis carnavalescos, seis intérpretes diferentes e nenhuma ida ao Sábado das Campeãs. Não há grêmio que resista intacto a este panorama de descontinuidade e acanhadas perspectivas.

Além disso, uma escola pentacampeã, formadora de quadros que brilham em várias coirmãs, não poderia se curvar a um enredo inacreditável e subserviente, como o que exaltou o festival Rock In Rio (2013). Não caiu por milagre. E mais: na beirada da Avenida Brasil, o rio de asfalto por onde escorre boa parte do Rio de Janeiro, a nova quadra - chamada de "Maracanã do Samba" - segue vazia nas madrugadas de domingo.

Mas onde está a torcida? Bem, a Mocidade perdeu a empatia com a sua gente. E simpatia. Virou o retrato da apatia, substantivo abstrato que não condiz com a festa imodesta que rasga o asfalto selvagem todo ano. Paulo Vianna, tenho certeza, é um torcedor apaixonado pela Verde e Branca. Mas não tem vocação de líder, não é um gestor, não nasceu para guiar um barco em que os remos necessitam de balé em perfeita sincronia. Poderia ter saído antes e seguido ao lado de pessoas que colocariam a Mocidade no alto, seu lugar de verdade. Ela necessita de administração empresarial, de sangue renovado. Seu nome é uma marca indelével, tem a ver com a novidade.

Mas Vianna ficou, perdeu, e, por fim, restou apenas a porta dos fundos por serventia.

Está na história, mas bem longe das páginas gloriosas.

Jornalista, escritor e comentarista de carnaval


* Originalmente publicado no Blog Repinique, de O Globo.

Permalink »    Debater no Espaço Aberto »

Últimos textos publicados:

  1. Carnaval e suas marcas para inglês (não) ver
    22/06/15 - 20:07

  2. A dor e delícia do Boulevard
    29/04/15 - 17:37

  3. Fernando Pamplona e o girassol
    31/03/14 - 19:53

  4. Samba falado não rima com inovação
    22/01/14 - 12:17

  5. Adeus a Fernando Pamplona, meu amigo ídolo
    29/09/13 - 12:28

arquivo

participe

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

© 2000-2013 - Galeria do Samba - As Escolas de Samba do Rio de Janeiro
Segunda-feira, 18 de Junho de 2018 - 04:13:44 | Expediente e Créditos |  Administração

Informe email e senha